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segunda-feira, 15 de abril de 2013

2. SEU ALONGAMENTO E ADJACÊNCIAS



Naquele tempo, onde terminava o Beco das Frutas, existia um extenso largo, atualmente ocupado pelo quarteirão que vai do terreno onde foi o bonito palacete de José Soares de Góis - demolido há alguns anos, da noite para o dia - até a Panificadora 2001. Esse grande espaço, naquele tempo devoluto, ia, em sua largura, das casas cujas frentes davam para a antiga Rua Pe. João Urbano, a começar pela de João Niceras de Morais, até as que tinham fachadas para a então Rua do Rosário  (essa Rua dp Rosário, diz Raimundo Nonato, era assim conhecida porque nela moraram várias famílias de negros que tinham por devoção, no mês de dezembro de cada ano, resarem o Rosário). Depois passou a chamar-se João Pessoa e atualmente é Mário Negócio, começando onde morava Raimundo Nelson de Lima.
O quarteirão iniciado pela casa de João Niceras era longo, terminando, na época, por trás da Igreja da Assembléia de Deus. Só a residência de Calistrado do Nascimento (atualmente domicílio do seu genro, o artista Rogério Dias) e os  armazéns do meu pai, Francisco Peregrino; só estes tinham fachadas para o tal largo. Meu pai aproveitara toda largura do terreno da nossa casa – uns quatorze metros - para edificar dois armazéns e um pequeno quarto com porta larga, deixando apenas, entre eles, uma estreita passagem para o nosso portão de saída. Utilizava um dos maiores e alugava os outros dois; um destes esteve, por vários anos, a um marceneiro, José Pereira, que morava lá mesmo. Era branco e alto, com a idade aproximada de trinta anos. Vez por outra ia vê-lo trabalhando. Seu almoço, preparava-o no local e sua sobremesa era goiabada, a metade de uma lata de um quilo. Depois que saiu de lá, soubemos que morrera de uma trombose, na própria oficina. Estes dois quartos maiores meu pai transformou uma casa, onde residiram diversas pessoas, entre as quais Freirinho/Adalgisa, Terezina Lacerda (viúva de Francisco Benévolo mais conhecido como Friso), casal Montenegro/Helena. No quarto menor, lembro de Zeca Dorico (José Lopes Bastos) dizia-se que estivera preso, por ser comunista, em 1935 ou 1936, na Ilha de Fernando de Noronha. Explorava uma sucata de peças de automóveis. Falava pouco; parecia-me um homem amedrontado. Também morou no mesmo quarto um tipo esquisito, Manoel Dantas – alvo, alto, magro, mas espadaúdo, de terno branco e chapéu - que vendia poesia de cordel; chamavam-no “poeta Dantas”. Às vezes, quando estava “em casa” com a porta aberta, deixava-me entrar e ler alguns folhetos, mas nunca me deu nenhum. Um dia desapareceu e não se teve mais notícias suas. Nunca soube de onde era nem para onde foi. Mais um tipo enigmático na penumbra do meu mundo perdido.
             Do outro lado do tal largo, prosseguimento da antiga Rua do Rosário (4), depois João Pessoa e atual Mário Negócio, ficavam as casas onde moraram, no meu tempo de menino,  Raimundo Nelson de Lima (na esquina, em casa que pertencia a Miguel Faustino do Monte), sobralense, que se radicou em Mossoró - assim como dezenas de outros – e constituiu apreciável patrimônio. Dos seus filhos, dois foram, além de parentes, bons amigos: Francisco Olivar do Monte Lima e Francisco do Monte Lima. Depois de Raimundo Nelson, residiu o Dr. Pedro Ciarlinni, engenheiro, nascido na Itália. O Dr. Pedro teve família numerosa e foi pai de Clovis Ciarlinni, casado com Maria da Conceição Escóssia (Conchecita), pais da Dra. Rosalba Ciarlinni Rosado, que ocupou a Prefeitura de Mossoró por dois mandatos. Clovis e Conchecita foram meus vizinhos na Av. Dix-sept Rosado.  Por volta de 1945, Antônio da Costa Filho (mais conhecido como Costinha de Horácio, figura de especial destaque na história social de Mossoró) a comprou aos herdeiros de Miguel Faustino e a dividiu em duas. Na parte da frente, para a Mário Negócio, funcionou o GTO - Grupo de Trabalho do Oeste, no governo de Aluízio Alves, Grupo que era chefiado pelo Dr. Francisco Duarte Filho e secretariado por José Genildo Miranda. A seguir, vinha Joaquim Felício de Moura (Quincas Moura), ao tempo dono da loja de ferragens A Primavera que, ao se mudar para outra, em frente ao Clube Ipiranga, adquirida de João Niceras de Morais, fez o mesmo que Costinha: dividiu-a também em duas: numa morou, durante algum tempo, o casal José Vieira da Costa e profª Lanusa Costa (que foi diretora da antiga Escola Normal de Mossoró) e, na vizinha, dentre outros, o médicos Dr. Antônio Luz e dr. Antônio Gastão. Também residiu numa delas o casal Diniz Câmara/Maria das Vitórias. Mais tarde, essas casas teriam sido vendidas a Willeman Andrade e ao Dr. Ednaldo Jales. A casa em que morou, durante muitos anos, a mãe do conhecido sapateiro Lindolfo Arruda, a velha costureira, dona Petronila (em seu quintal existiam um jasmineiro e um pé de bogarí, de forte mas agradável aroma) foi comprada por Arnóbio Pinto - casado com a Profª Sergina Leão - que a demoliu e edificou uma nova. O local onde vivia a família de Juvêncio Cunha Filho (Pucunino) e dona Elisa, foi, anos depois, adquirido por Antônio Câncio de Souza (Seutônio, meu estimado amigo de infância, precocemente falecido), que nele construiu a casa onde passou a morar, quando casou, em novembro de 1947. A seguir, vinha o sr. João Câncio de Souza (Seu Joquinha), que não cheguei a conhecer, casado com dona Amélia, pais de Maria, Adalgisa, José, João, Antônio (Seutônio), Francisco, Jesum e Pedro. Maria casou com Moacir Pereira de Oliveira e foi residir em Santa Catarina. Dona Adalgisa casou com o industrial Jerônimo Dix-sept Rosado, que seria, anos depois, Prefeito de Mossoró e Governador do Estado, falecido em desastre aéreo em 12.7.1951, ainda praticamente no início do mandato). Seutônio foi um dos meus melhores amigos. De todos, sobrevivem apenas dona Adalgisa, com 87 anos, e João Câncio Filho. Inúmeras vezes freqüentei essa casa nas nossas brincadeiras de menino! Recordo, ainda, que, ao lado, existia um terreno no qual Seu Joquinha mantivera uma vacaria. A calçada da casa de dona Amélia era, então, o ponto de encontro dos meninos que moravam nas imediações, uns doze a quinze. Nas nossas brincadeiras, nas correrias às vezes por dentro de sua casa, fazíamos um enorme barulho que, por certo, a importunava muito. O terreno vizinho à antiga vacaria era a entrada (ou saída) do que Raimundo Nonato chamou de “Beco de João Caetano”, já referido. Foi nele que, mais tarde, Julimar Ramos, que era Inspetor do INS, construiu sua residência, fechando, assim o beco. E, no fim desse quarteirão, ficavam a casa de morada e o armazém onde funcionava a famosa bodega de João Caetano (5), na esquina com a Rua Quintino Bocaiúva.
             Em seguida, vinha outro quarteirão, a começar pela residência de José Júlio, que comentavam ser capitalista e dono de uma casa de jogo; visualizo-o, ainda, transitando pela  rua, sempre trajando terno de linho branco. Essa casa foi comprada por Antônio Rodrigues do Monte – comerciante, fazendeiro e industrial salineiro - que a mandou demolir e erguer uma outra, para Antônio Rodrigues do Monte Filho. Depois, era o casarão, com quatro janelas na frente, do mesmo Antônio Rodrigues do Monte (Toinho Rodrigues, também conhecido por Prego Dourado). Toinho integrava a numerosa colônia sobralense que imigrou para Mossoró, atraídos pelo poderoso empresário Miguel Faustino do Monte, seu tio; colônia que por quase um século teve importante influência na vida econômica, social e política de nossa terra. Em sua casa, após sua morte, morou, quando Prefeito de Mossoró, o Dr. Raimundo Soares de Souza, notável advogado, fulgurante inteligência.  Recentemente, essas  duas mansões estão derrubadas. Sobre Toinho Rodrigues, uma reflexão: o tempo é um implacável e impiedoso demolidor! Acompanhei meu pai, várias vezes, à sua casa, em visita a ele, seu primo: mesa farta, sempre cheia de gente; família grande, vários empregados, moradores de suas fazendas e administradores da salina Jurema. Hoje, tudo mudou; os seis filhos já faleceram. Não sei o que restou do patrimônio que construiu. Vizinha a esse casarão, era a de João Cantídio/dona Ildérica; ele comerciante e ela professora e teatróloga. Sua ampla e bonita casa foi palco de  constantes festas sociais. Seguia-se-lhe a de seu Epaminondas (6) e mais cinco casas, naquele tempo novas, todas com fachadas idênticas, edificadas por José Rodrigues de Lima, outro sobralense, irmão de Antônio Rodrigues do Monte, rico empresário, então o maior proprietário urbano de Mossoró. Continuando, vinham com as moradias vizinhas de Otacílio Silva e Raimundo Agostinho (a deste, com amplo quintal, no qual mantinha uma vacaria), e terminando em um armazém na esquina com a antiga Rua 13 de Maio. Tanto Raimundo Agostinho quanto Otacílio Silva eram proprietários de caminhões mistos, talvez os primeiros a fazer a linha regular entre Mossoró-Fortaleza. Atualmente, naquela esquina, existe um edifício comercial.
 O extenso largo a que me refiro foi, por muitos anos, palco encantado das brincadeiras dos meninos do meu tempo, residentes nas cercanias. Quem iniciou a construção desse novo quarteirão que começava no palacete, já referido, de José Soares de Góis, e termina na Panificadora 2001, foi meu pai, Francisco Peregrino Rodrigues, quando era Prefeito o Pe. Luiz Mota. Construiu, por etapas, um armazém e, em anexo, uma casa, a de número 194, onde residi quando casei, em janeiro de 1947. Depois de mim, moraram nela, entre outros, um sr. José Onofre, casado com dona Esmeralda, o sr. José Noronha e várias outras famílias nesse longo período. O armazém foi, depois de adaptado para uma casa, alugada, sucessivamente, a Cândida Wanderley de Albuquerque (dona Iaiazinha, professora aposentada, filha do poeta abolicionista Dr. Paulo Leitão Loureiro de Albuquerque). Residiram, também, um sobrinho do meu pai, vindo de Sobral, Lourival Rodrigues, dona Sebastiana Marques,  Humberto Solon, entre outros. Depois do meu pai, quem construiu nesse quarteirão, na esquina com a Rua Almino Afonso, foi o já mencionado José Soares de Góis, um belo palacete, lamentavelmente hoje demolido. A seguir o Dr. Mário Negócio de Almeida e Silva, advogado brilhante, falecido em acidente automobilístico quando era Secretário Geral do Estado no governo de Dix-sept Rosado, recebendo essa rua, em sua homenagem, o seu atual nome. Depois, vinham Walter Wanderley, intelectual, e Lauro da Escóssia, jornalista, então diretor do O Mossoroense.  Pegada à casa em que morei, um senhor Lopes ergueu a em que  morou meu amigo, desde a adolescência, Genildo Miranda, então recém casado com Ana Salem; Genildo seria anos depois, Vereador e Vice-Prefeito de Mossoró. Em seguida, Luiz Melo, filho do ferroviário João Delmiro, o mesmo Luiz que, aos doze anos, aproximadamente, ia, em sua bicicleta, comprar café no estabelecimento do meu pai, deixando-me “morto” de inveja.  No prosseguimento, José Rodrigues Lima, construiu duas casas, onde residiram, entre outros, Osni Machado - que foi contador do Banco de Mossoró - Edílson Moura e o sr João de Deus Ribeiro com sua numerosa família.  Os dois armazéns onde ainda funciona a Panificadora 2001 foram edificados também por meu pai. Transferiu para lá suas máquinas de beneficiamento de sal, café e milho e instalou a serraria. Ao aposentar-se, vendeu tudo a Raimundo Filgueira e este, depois, a Otávio Luiz de Lima (meu compadre, já falecido). Quando meu pai morreu, em 10.07.1954, esses armazéns ficaram, no inventário, um para mim e o outro para meu irmão José Augusto Rodrigues; alugamos e depois os vendemos ao sr. Raimundo Melo.
Atualmente, em quase todo o percurso da Rua Mário Negócio só existem lojas comerciais. Suponho que dona Adalgisa Rosado, viúva do ex-Governador Dix-sept Rosado, ainda reside na casa que pertenceu a seus pais. Também familiares de Lauro da Escóssia moram na casa que lhe pertenceu.
Tendo “percorrido” a Rua Mário Negócio, a partir da esquina onde morou Raimundo Nelson, isto é, a partir da Rua Almino Afonso, transversal, é interessante que me refira ao espaço onde nasce essa rua, originalmente chamada “do Rosário”: justamente na esquina oposta ao armazém de Chico Bernardo, no Beco das Frutas. Alcancei ali o sr. Joaquim Apolinário com uma padaria que, depois, fechou para montar uma loja de tecidos, que foi vendida, mais tarde, ao sr.   Malaquias Araújo. Atualmente quem está lá é o sr. Gilson Nunes, com a loja “Gilson Variedades.” A seguir, vinha a padaria de Chico Apolinário (Francisco Ferreira Nolasco), em cuja calçada, nas noites, então tranqüilas, costumavam reunir-se seus amigos – inclusive meu pai, muitas  vezes levando-me e trazendo-me nos braços, adormecido  - para conversar. É natural que, no decorrer desse mapeamento, afluam remotos fragmentos de lembranças. Recordo, por exemplo, que, certa vez, não sei por que motivo, seu Chico levou meu pai ao interior da panificadora, onde ficavam os fornos e, em fôrmas de madeira retangulares, se preparava a farinho de trigo para o fabrico dos pães. Caboclos musculosos, nus da cintura para cima, viravam e reviravam a massa, o suor abundante escorrendo e com ela se misturando. Constatei assim, então, que, contrariando a sentença divina, nem sempre se come o pão com o suor apenas do próprio rosto. Hoje é diferente: são máquinas modernas que preparam a massa, mas,  naquele tempo comíamos o pão “temperado” com o suor dos padeiros que, noite a dentro, até a madrugada, trabalhavam no calor sufocante proveniente dos fornos a lenha. Vizinho a seu Chico, lembro do funcionamento de um café/bar que pertenceu, seguidamente, a Cândido Ganjão, Nezinho Jabuaba e Antônio Mota (que se tornou conhecido, na década de 60 como “aluizista” fanático), além de outros. Depois desses, era Chico Benévolo (pai do meu colega  Luiz Benévolo Dantas, também, como eu, aposentado, os dois sobreviventes, num conluio com o tempo, da turma dos cinco que tomaram posse, no mesmo dia,  no Banco do Brasil - até quando Deus permitir). Entre Chico Benévolo e a mercearia de Segundo Marques, esta esquinando com o beco de José Gregório, havia uma barbearia de Odílio Jardelino.  Érico (Eli), filho de Chico Apolinário, residente em Natal, me assegurou que, no ponto onde conheci Segundo Marques esteve, antes, o sr. Deca Damião. Atualmente, nessa esquina, existe a COMARC, armazém de material de construção pertencente a Raimundo Marques de Oliveira (o mesmo da bodega do Beco das Frutas), dirigida por seus filhos Jaecilio e Joeilton.
          Vis-à-vis ao quarteirão que acabei de referir, de uma esquina a outra, eram pequenos quartos. No primeiro estava a bodega de Santos Morais. Até há pouco tempo, funcionou, em prédio reformado, um armazém de estivas de Chiquinho Andrade, mas agora é uma filial da Drogaria Globo. Lembro da barbearia de Chico Batista (7), que era freqüentada por meu pai e foi, também, meu primeiro barbeiro. Não recordo de todos, porém sei que nesse quarteirão existia um quarto com bilhar e jogo do bicho de Joaquim Diabo, e o sr. Joaquim Bruno da Mota (pai do Tabelião Joca Bruno, pessoa esta que desfrutou de muito prestígio social no seu tempo), foi bodegueiro. Mais tarde, Elias Morais, que era o proprietário de quase todos (comprados do seu parente Santos Morais, então fiscal do Mercado Público), mandou demoli-los para edificação de outros mais modernos, reservando o da esquina com a Praça Souza Machado para estabelecer sua sortida mercearia. Nesse local, o sr. Pedro Aquino de Morais levantou um edifício de dois pavimentos, funcionando, no térreo, quatro pequenas lojas pertencentes a diversos.
           Na mencionada Praça Souza Machado nenhuma construção havia até a década de 40. No meio da grande praça existia um moinho de vento, junto a um poço construído pelo antigo e extinto DNOCS. Quebrado há anos, servia apenas para os doidos e os bêbados nele subirem, dando trabalho à polícia.  A notícia de alguém lá em cima logo se espalhava e era uma diversão para a garotada das cercanias. Quando Prefeito,  Pe. Mota iniciou nessa praça, no alinhamento da então Rua João Pessoa, a construção de um prédio que eu ouvia falar destinar-se à sede da Prefeitura. Depois, não sei por que razão, certamente resultado de algum entendimento com a direção do Clube Ipiranga, que não possuía sede e funcionava nos altos do edifício da União Caixeiral, na Praça da Redenção, passou-se a dizer que ali seria sua futura sede, como de fato aconteceu (8). O Clube Ipiranga foi palco, por vários anos, de memoráveis festas (bailes, banquetes, convenções, etc). Lá, realizaram-se, por vários anos as festas das debutantes, das meninas que completavam 15 anos, idealizadas e organizadas por dona Ildérica Cantídio. Nele aconteceu o jantar que me foi oferecido pela ACM , o CDL, Prefeitura e clubes de serviço, em agosto de 1966, quando fui nomeado gerente da agência local do Banco do Brasil.
          Com o decorrer do tempo e mudança dos costumes, as festas deixaram de acontecer, o prédio foi ficando abandonado e nele passou a funcionar um bar. De que forma a ACEU se apropriou de todo o conjunto, não sei. Conversando, certa vez, com Enéas Negreiros, um dos antigos diretores do Ipiranga – do qual ainda possuo título de sócio proprietário – também disse ignorar como aquela entidade se apropriara do prédio. Estou sabendo que, atualmente, pertence a UERN. Como e por que meio, ignoro. 
          Mas, voltemos ao segundo quarteirão após o Beco de Zé Gregório (que ligava o Beco das Frutas à então Rua do Rosário), na esquina onde é a COMARC. Ultrapassado o beco e onde era o armazém de José Milton de Oliveira, existe uma loja de produtos veterinários, pertencente a Hermes de Souza Rocha. No prédio anexo funcionou um estabelecimento (não lembro de que gênero) de Edinor Mendes. A seguir, uma sapataria de Seu Né e, depois de um terceiro que não recordo, ficava a casa onde mais tarde Quincas Moura instalou sua residência, em frente à sede do Clube Ipiranga. (Alguns anos depois, o senhor Quincas  mudou-se para outra casa na Rua Almino Afonso, esquina com a Av. Dix-sept Rosado). Hoje, só existe o terreno pertencente, pelo que fui informado, ao Dr. Milton Marques. Depois da casa de Quincas Moura vinha a loja de calçados de Pedro Agostinho. A seguir, Chico Beato, que vendia toda sorte de quinquilharias. Por fim, na esquina com a Rua Almino Afonso esteve Juvêncio Cunha Filho (Pucunino). Essa casa e a vizinha pelo lado da Almino Afonso, onde morou Joca Sapateiro, o Dr. Vingt-un Rosado as comprou, demoliu e construiu sua residência, onde permaneceu vários anos, sucedendo-o seu genro,  Diran Ramos do Amaral. Atualmente, no local, existe um armazém de material de construção, “NOSSA CASA”, pertencente a Genivan Josué Batista, já na esquina da atual Rua Almino Afonso. A partir desse ponto, prossegue a Rua Mário Negócio.

           Raimundo Nonato da Silva era uma memória privilegiada, uma conversa recheada de episódios pitorescos, que recolhia em suas andanças pelos bairros da cidade. No livro “Ruas, Caminhos da Saudade”, sentimental em certas evocações, menciona repetidas vezes determinada rua ou beco; ao referir-se à Rua Riachuelo, informa: “Antigo Beco de Chico Bernardo com o seu atual prolongamento até cruzar o Beco de Jeremias Cego, na esquina do estabelecimento comercial de Artur Céa, fabricante de malas, que antes estivera envolvido em um crime em Areia Branca.”  Prosseguindo, fala de um quarteirão novo, “construído no meio da Rua do Rosário, de que eram proprietários, entre outros, José Soares, Mário Negócio, Walter Wanderley e Lauro da Escóssia”, omitindo que foi meu pai quem teve a iniciativa de falar com o Prefeito Pe. Mota, pedindo licença para construir ali e foi quem primeiro o fez. Lembro que o Pe. Mota mandou uma pessoa proceder a demarcação e o alinhamento das ruas e autorizou a construção. “A Riachuelo – prossegue Nonato - é, assim, uma rua de fundos e de muros, sempre cheia de portões com depósitos de lixo, de material de construção, de buracos e depressões onde se formam verdadeiros charcos por ocasião das grandes cheias”.
           Na verdade, ERA assim. Toda a água servida das casas despejava-se na rua através de esgotos, formando grandes lamaçais aonde os porcos vinham fuçar. Eram tantos os animais soltos – vacas, jumentos, cachorros, porcos e outros que o Pe. Mota tomou uma providência: publicou avisos aos proprietários para que os recolhessem, pois, a partir de determinada data, as vacas e os jumentos soltos no centro da cidade seriam apreendidos e os porcos e cachorros abatidos. Eu vi, com muita pena dos pobres animais, fiscais da Prefeitura atirarem em alguns porcos e cães vadios, que, atingidos, corriam gruindo ou ganindo até caírem mortos. Essa providência, embora drástica, diminuiu o número de bichos soltos nas ruas.
           Com o tempo, o panorama dessa rua foi mudando. Augusto da Escóssia construiu uma casa com frente para a Riachuelo, onde moraram, entre outros, o a sogra do senhor Raimundo Couto, sra. Maria Cunha de Azevedo. Raimundo Couto era sogro de Lauro da Escóssia, que também residiu nela residiu. Também o sr. Edmundo Femenick, de nacionalidade croata, casado com Maria José Rodrigues Femenick, pais do escritor e professor Tomislav Rodrigues Femenick; os srs. João Newton da Escóssia, Emery Costa, Rubens Dias, além de outros.  Pedro Leão de Moura, por sua vez, mandou levantar quatro quartos para alugar. Em um deles morou durante alguns Vicente Ferreira (Vicentinho do Cartório, a quem Raimundo Nonato dedicou uma crônica no livro “Reencontro Com As Imagens do Tempo – II). Nos demais, Marcelino teve uma oficina de marceneiro; Bem-Te-Vi uma funilaria e o Galego um depósito de bananas.  A idéia de se aproveitar o terreno existente nos fundos das casas com frente para a rua Pe. João Urbano se generalizou e vários proprietários edificaram pequenos armazéns para locação, tanto no primeiro quarteirão, no início da rua, quanto no segundo. João Niceras, na esquina, também o fez. Por trás da casa de José de Almeida, num quartinho, morou por muitos anos Cearense, cosinheira, baixinha, gorda, branca, cabelos ruivos em coque. Dizia-se que chegara a Mossoró num circo e decidira ficar, mas não conheço o que a motivou.
           Atualmente, a fisionomia do que foi o Beco das Frutas está transformado, comparando-se com a de algumas décadas atrás, convindo esclarecer que os antigos depósitos, que deram origem ao seu nome, eram situados no lado ímpar dos dois quarteirões, isto é, do armazém de Chico Bernardo até o Beco de Zé Gregório e deste até o que Raimundo Nonato chamava de Beco de Jeremias Cego, hoje Rua Almino Afonso, que se estende, perpendicularmente, da Rua Almir de Almeida Castro até confinar com a Desembargador Dionísio Filgueira. Situaram-se nesse trecho devido à proximidade do Mercado Público - então mercado de carnes, pescados, frutas, ervas, legumes, hortaliças, leite e seus derivados, bodegas de diversos gêneros etc. Qualquer coisa que alguém quisesse vender levava ao Mercado.  Entretanto, com a instalação da Central de Abastecimento, onde funcionava a antiga COBAL - construída no espaço conhecido, naquela época, como “Salgado” - não existem mais, no beco, aqueles antigos depósitos de frutas.. Permanece apenas a lembrança do seu nome.
           A idéia aventada, certa vez, na Gazeta do Oeste, pelo jornalista Mário Gerson, de se fazer a revitalização do Beco das Frutas é interessante, embora não se possa dizer que o nosso Beco das Frutas tivesse uma paisagem digna de preservação, ou que tenha sido freqüentado, em qualquer época, por boêmios, poetas ou músicos, como foi e continua sendo, em Natal, o chamado Beco da Lama. Foi um espaço de feirantes com alguns poucos bares freqüentados, nas noites, por bêbados, párias e mulheres ditas “da vida”. Pelo que observei recentemente, seu cenário atual está quase totalmente transformado, comparando-se com o de algumas décadas atrás.    
           Esta reconstituição do Beco das Frutas e adjacências está baseada no que vi e, de certo modo vivi, ao longo de muitos anos, desde quando era simples “beco das frutas” até seu alongamento com o nome de Rua Riachuelo, que é a atual Rua Francisco Peregrino Rodrigues, com inicio na Praça Otávio Lamartine, ao contrário do que, por engano, informa nosso mestre e amigo Prof. Raimundo Soares de Brito, em o “Dicionário Ruas e Patronos de Mossoró”, quando a limitou até a Rua Almino Afonso. A Rua Francisco Peregrino Rodrigues,  prossegue até o final, na confluência, hoje, com a Av. Dix-neuf Rosado. Foi uma justa homenagem proposta em 1954 – ano do seu falecimento - pelo então vereador, seu conterrâneo, Joaquim da Silveira Borges, a um modesto componente da grande colônia sobralense que se formou em Mossoró do final do Século XIX até as duas primeiras décadas do Século XX, atraída pelo extraordinário homem de empresa, de excepcional visão administrativa  – o maior do seu tempo - Cel. Miguel Faustino do Monte.
           Evidentemente que aqui estão apenas alguns apontamentos não devidamente metodizados. Não é, pois, um levantamento completo e bem fundamentado, eis que elaborado com base apenas em minhas lembranças e no concurso de alguns poucos amigos da minha geração, aos quais telefonei. Por isso, está até um tanto desordenado e repetitivo, certamente com omissões e falhas. Poderá, porém, ser um ponto de partida para quem se proponha a um estudo mais detalhado.
           Hoje, o panorama dessas ruas está muito mudado. Na Mário Negócio, quase todas as casas residenciais passaram – reformadas - a ser estabelecimentos comerciais. Restam poucas moradas. 
           Pedindo desculpas pelas digressões que alongaram esta reconstituição, reafirmo que não sei como possa ser “restaurado” o antigo Beco das Frutas, cuja imagem está na minha memória como uma fotografia um tanto desbotada pelo tempo.
           Mencionei aqui apenas alguns dos antigos moradores da minha velha Rua Pe. João Urbano, pois tenho o propósito – projeto só, por enquanto - de fazer sua recomposição, casa a casa, pois foi ela o cenário das minhas mais afetivas lembranças que, além de revisitado em constantes e saudosos retornos espirituais, povoa de recordações muitas de minhas noites insones. Será um périplo, um passeio emocional, visualizando seus antigos moradores, como que conversando com velhas almas amigas, desde o início, ao lado da Catedral, de um lado e, do outro, começando pelo saudoso prédio onde funcionou o Ginásio Diocesano Santa Luzia - no qual estudei cinco anos, de 1938 a 1942 - indo até o final, onde morou Israel Damião, numa bonita casa hoje destroçada.  Devendo ser um cometimento que pretende recompor toda a sua paisagem, certamente demandará tempo. E, como já estou caminhando para os oitenta e dois anos, não sei se haverá esse tempo. Sempre o tempo... Ademais, não sei se valeria a pena.
           Este mapeamento, repito, está passível de falhas, troca de nomes e omissões, pois, para escrevê-lo, tive que forçar um exaustivo rastreio em minhas recordações  mais remotas, evocando tantas figuras já desaparecidas, entre as centenas que ainda estão guardadas nos desvãos da minha memória. Em tardes de solidão, muitas delas costumam vir agulhar-me a alma com as relembranças mais longínquas, até as que já supunha perdidas no tempo para sempre. Agora, na velhice, estou constantemente a visualizar velhas figuras ou antigos lugares que freqüentei ainda na infância, experimentando, assim, a sensação de que tais evocações constituem um acalanto a embalar as muitas saudades de quem tantas emoções já experimentou ao longo do caminho, ciente e consciente de que todos aqueles momentos, figuras e paisagens se perderam definitivamente no tempo e jamais as poderei reviver, senão assim, mentalmente

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